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domingo, 3 de junho de 2012

gui bonsiepe e identidade

no capítulo Identidade − Contraidentidade do Design do livro Design, Cultura e Sociedade, Gui Bonsiepe fala de algumas perspectivas do artesanato.

O uso de recursos locais (motivos gráficos, combinações cromáticas, materiais e processos de produção intensivos em mão–de-obra) em relação ao design e criação da identidade pode ser visto de maneira exemplar em países periféricos. Em grande parte, essas atividades pertencem ao setor informal da economia e aplicam, em geral, processos não intensivos em capital. Frente ao tema artesanato e design, podemos detectar as seguintes posturas que aparecem em forma pura ou misturada:

1 o enfoque conservador. Procura proteger o artesão contra qualquer influência do design vinda de fora. Esta postura se encontra ocasionalmente entre antropólogos que rejeitam qualquer aproximação entre design e artesão, pois querem manter o artesão em estado puro, imaculado e resistente contra influências contemporâneas. (...)
2 o enfoque estetizante. Considera os artesãos representantes da cultura popular e eleva seus trabalhos ao status de arte, utilizando o termo “arte popular” em referência a “arte culta”. Às vezes se usa o repertório das formas da arte popular (ornamentos, combinações cromáticas) como ponto de partida ou fonte de inspiração quando representantes de fora, estranhos às comunidades, tratam de imitar a linguagem formal-estética para fins de design. Concretamente este enfoque se manifesta no chamado ethnodesign;
3 o enfoque produtivista. Considera os artesãos como mão-de-obra qualificada barata, utilizando suas capacidades para produzir designs desenvolvidos e assinados pelos designers e artistas. Requer uma boa medida de ingenuidade ou frescura quando esse enfoque, apresentado como “ajuda” para o artesanato na periferia,  é recomendado por motivos de interesses humanitários a fim de produzir designs  “inspirados” pela cultura popular local ou designs diretamente trazidos do centro  com mão-de-obra barata nessas comunidades. Tal prática do design perpetuaria as relações de dependência em vez de contribuir para sua superação;
4 o enfoque culturalista ou essencialista. Considera os projetos locais dos artesãos como base ou ponto de partida para o que seria denominado como verdadeiro design latino-americano ou indo-americano. Às vezes este enfoque vem acompanhado de uma postura romântica que idealiza o suposto passado “bucólico”;
5 o enfoque paternalista. Considera os artesãos em primeiro lugar como clientela  política para programas assistenciais e exerce uma função mediadora entre os produtores e a comercialização (marketing), em geral com altas margens de lucros para os vendedores; 
6 o enfoque promotor da inovação. Advoga a autonomia dos artesãos para melhorar suas condições de subsistência, muitas vezes precárias. Neste caso, é necessária a participação ativa dos produtores.

trata-se de uma questão bastante polêmica. no nosso projeto, temos como ideal o enfoque promotor da inovação, apesar de termos consciência da sua dificuldade de aplicação (talvez pela nossa inexperiência) e da incerteza quanto ao nosso papel no processo.

quando se refere à manifestação de identidade do design, o autor apresenta cinco modos de sua materialização:
− em forma de um grupo de características formais ou cromáticas (stilemi);
− na estrutura da taxonomia dos produtos, os tipos de produtos característicos para uma cultura, por exemplo, uma cuia de cabaça que foi criada na cultura guarani;
− no uso de materiais locais e métodos de fabricação correspondentes;
− na aplicação de um método projetual específico (empatia por uma tradição e uso desses atributos arraigados em determinada região).

além disso, o autor expõe a importância da relação com o ambiente e a natureza para o artesanato, que vai além dos problemas de subsistência. muitas tradições e lendas surgem a partir de motivos de fauna, flora e astronomia, e depois se materializam nos produtos. a destruição da natureza passa a ser, assim, também uma ameaça para a continuidade dessa cultura. tal questão é diretamente aplicável ao artesanato produzido na região em que o nosso projeto se insere. o cerrado é uma das maiores inspirações para os artesãos locais, muitos deles provenientes de diferentes partes do território nacional.

BONSIEPE, Gui. Design, Cultura e Sociedade. São Paulo: Blucher, 2011.

domingo, 20 de maio de 2012

artesanato

afinal, o que é e o que não é artesanato?

a Base Conceitual do Artesanato Brasileiro é um documento desenvolvido pelo Programa do Artesanato Brasileiro (PAB) e tornado público pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) com o intuito de contribuir para a definição de políticas públicas e o planejamento de ações de fomento para o setor artesanal.

segundo a normatização, artesanato compreende toda a produção resultante da transformação de matérias-primas, com predominância manual, por indivíduo que detenha o domínio integral de uma ou mais técnicas, aliando criatividade, habilidade e valor cultural (possui valor simbólico e identidade cultural), podendo no processo de sua atividade ocorrer o auxílio limitado de máquinas, ferramentas, artefatos e utensílios. e não é considerado artesanato trabalho realizado a partir de simples montagem, com peças industrializadas e/ou produzidas por outras pessoas; lapidação de pedras preciosas; fabricação de sabonetes, perfumarias e sais de banho, com exceção daqueles produzidos com essências extraídas de folhas, flores, raízes, frutos e flora nacional; habilidades aprendidas através de revistas, livros, programas de TV, dentre outros, sem identidade cultural. outra questão importante relativa ao artesanato é que, mesmo que as obras sejam criadas com instrumentos e máquinas, a destreza manual do homem é que dará ao objeto uma característica própria e criativa, refletindo a personalidade do artesão e a relação deste, com o contexto sociocultural do qual emerge.

existem diferentes formas de organização dos artesãos. As Floristas são um Núcleo de Artesãs classificado como associação. uma associação é uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos, constituída com o objetivo de defender e zelar pelos interesses de seus associados. Regida por estatuto social, com uma diretoria eleita em assembléia para períodos regulares. A quantidade de sócios é ilimitada.

a técnica de produção artesanal consiste num conjunto ordenado de condutas, habilidades e procedimentos, combinado aos meios de produção (máquinas, ferramentas, instalações físicas e fontes de energia e meio de transporte) e materiais, por meio do qual é possível obter-se, voluntariamente, um determinado produto. A técnica artesanal alia forma e função, requerendo destreza manual no emprego das matérias-primas e no uso de ferramentas, conforme saberes variados e com uso limitado de equipamentos automáticos.

a técnica artesanal das Floristas é o bordado, descrito como uma técnica executada sobre tecido ou outro suporte utilizando agulha, linha e bastidores, podendo ser trabalhada com as mãos ou feita em máquinas de pedal ou de motor elétrico. pode ser classificado como aberto, aplicação, boa noite, casa de abelha, cheio, corrente ou cadeia, cruz, filé, hardanger, inglês, matiz, ponto caseado ou festonê, rendendê ou renda de dedo ou rendendepe, reto, richelieu, rococó, russo, sombra e vagonite. 

segundo a cartilha Produção Associada ao Turismo, Artesanato, Arte Popular e Manualidades, do Ministério do Turismo, o artesanato pode apresentar vários usos e utilidades. no presente projeto, busca-se atuar em primeira instância em:
– adornos, acessórios, adereços: objetos que procuram completar a harmonia do conjunto no vestuário feminino ou masculino. No artesanato, esses objetos normalmente estão presentes no ambiente da moda como jóias, bijuterias, cintos, bolsas, fitas, entre outros.
conjuntamente com o uso acima, pretende-se desenvolver peças que também estejam relacionadas a: 
– lembranças/souvenir: peças que representam uma região ou evento, adquiridos ou distribuídos com a finalidade de preservar, resgatar memórias e presentear. A aquisição ou distribuição de lembranças/souvenir é prática comum em várias culturas. Sua fabricação e venda é uma atividade econômica com ligações no setor de turismo e serviços, principalmente os relacionados com a promoção de eventos.